quinta-feira, 22 de março de 2018

O Rock Progressivo

Pra mim o rock progressivo era praticamente desconhecido até 1983. Meus amigos do centro curtiam rock e pronto. Por rock entendíamos sem entender, ouvíamos AC/DC, Judas Priest, Saxon, Tigers of Pan Tang e todo o NWOBHM, álbuns que, por um milagre, estavam a venda nas lojas de discos de Goiânia ou que amigos traziam de suas viagens a São Paulo e ao exterior.

Usávamos recorrentemente o termo Heavy Metal para designar um conjunto de mídia. Fosse cinema, quadrinhos, moda ou música a gente curtia Heavy Metal e não diferenciávamos do Hard Rock. Pra gente UFO era metal e Van Halen também. Em minha ignorância de 13 anos de idade eu considerava o álbum Queen Live Killers como metal e tudo era rock.

Mas em 1983 conheci as bandas Eclipse e Alpha Rock e com eles adentrei ao mundo dos roqueiros progressivos de Goiânia e então a coisa meio que resetou.

Essa turminha do progressivo, mais especificamente o pessoal do Alpha Rock (Redondos) desprezava o metal e jamais falavam em punk.

Frequentando sua casas e ensaios, as bandas que passei ouvir - através deles - eram Van der Graaf Generator, Premiata Forneria Marconi, Focus, King Crimsom além de Yes, Rush e outros progressivos cuja menção criava um ambiente erudito cujo único desvio permitido era o Jazz e o Fusion. Assim passei a ouvir Weather Report e solistas como Jaco Pastorius, Pat Metheny, Stanley Clarke e quetais.

Essa galera progressiva estava pelos 18 anos de idade e consideravam o metal uma infantilidade e raramente falavam em punk.



Marca Registrada circa 1985

Quando resolveram formar uma banda o resultado foi o Alpha Rock/Marca Registrada sem esquecer o Sexta 13, mas como tocar progressivo se você desconsidera o rock'n'roll, ignora o 'Garage Rock', passa ao largo do punk e enruga o nariz para o metal e não tem composições próprias?


1984 me parece ter sido o ano zero pois foi ano em que acontece o autointitulado 1º CONCERTO DE ROCK DE GOIÂNIA, vamos analisar o flier:



A única atração local foi Markan Camaralina logo não foi um show de "ROCK DE GOIÂNIA'.

Sinto a ausência do Língua Solta, mas os organizadores ao anunciarem o concerto como 'DE GOIÂNIA' mostram-nos que a capital não tinha tradição alguma de rock e Markan seria o único representante assim como Caetano Veloso foi a escolha 'natural' para entrevistar Mick Jagger em 1983 na Rede Manchete.

Acho que todo mundo que curtia rock nesse ano compareceu ao CONCERTO e testemunhou o momento em que Markan atirava cópias de seu compacto (disco) para a plateia e a plateia gentilmente atirava os discos de volta ao palco. Quem filmou? Favor entrar em contato. 

vamos analisar o cartaz:




Em pleno 1984 (apenas 1 ano antes do 1º Rock'n'Rio)os organizadores desse CONCERTO acharam que estava JÓIA um cartaz do 1º CONCERTO DE ROCK DE GOIÂNIA com uma enorme foto dos... Rolling Stones.

Acho que é o bastante para ilustrar onde é que repousava a cabecinha dos produtores, radialistas, publicitários e demais 'gente de mídia' em Goiânia naquele momento. Basta? 

Nesse mesmo 1984 surgiria a banda new wave Wemaguettes inaugurando precocemente (para Goiânia) a cena postpunk. Começaria então a se manifestar uma geração avessa aos solos de guitarra, aos cabelos compridos e às viagens progressivas, o rock passa a ser considerado com uma enorme dose de suspeita e um abismo intransponível se abre entre a geração dos 1970 e dos 1980.


Os Wemaguettes 1984

Mas antes que a 'cena' retomasse o crescimento houve essa 'entressafra' caracterizada pela ausência do Fox Trot, do Língua Solta e de Markan. 


Fox Trot ao vivo 1982


Em 1984 outros grupos de rock surgem na capital e nenhum deles agitava a bandeira do progressivo, mas tampouco agitavam qualquer outra bandeira. A única vertente definida era o metal inicialmente representado por Asgard e Mortuário enquanto as outras: Oficina de Luz, Pressão Alta, Megaton, Edição Pirata, Marca Registrada, etc., não tinham estilo definido se apresentando apenas como 'bandas de rock' assim genérico sem representação nem sintonia com qualquer cena enquanto a Eclipse, muito bem ensaiada e fazendo shows durante 1984 e boa parte de 1985 tocava 'covers' de bandas nacionais e internacionais.

A MORTE DO PROGRESSIVO?

A partir de 1985 as bandas de Goiânia se separaram ou transmutaram-se em novas bandas.

Em 1988 já não se encontrava quem se lembrasse dos grupos anteriores a 1985. o estereótipo hippie desapareceu. Qualquer outfit porra-louca foi descartado do guarda-roupas (faixas de tear, crochet, batas indianas, alpargatas, pulseiras de miçangas, etc) e até o costume de acender incensos entraria em standby.

o aquecimento para a década de 90 viria com a banda punk HC 137 que lançou seu vinil em 1988 e o metal/hardcore assumiria seu lugar de liderança na cidade.

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